Aurora Borealis

Friday, December 09, 2005

O PERSEGUIDOR


Escapei da praia movediça
onde a areia e o mar tragavam
os pés para encontrar
somente os trovões da alma.

Porque cada separação esconde
um germe de loucura, encarei
o poço da escuridão negado
pelos antepassados incapazes

de vislumbrar o grão de
luz plantado no passado
colhido na agonia cotidiana
ou no alimento ofertado

aos deuses sedentos
de um porvir inútil, grávido
de trevas, anunciado
em um altar onde o fogo

arde os olhos bêbados
de uma visão que nenhuma
lira traduziria
em harmonias e cantos

o que a alma anseia
quando, no combate
com o Anjo, a ferida é
o fruto da benção.

Mas no instante em que
a voz sussurra a lenta
queda deste mundo
dissolvido, o que fazer

se os ouvidos se calam
e o coração é apenas
mais uma batida no
pulso das estrelas?

Se ela diz ao corpo
que a jornada são lágrimas
sufocadas pela espuma do céu,
persigo então a resposta:

“Sim, sou o que vai ao
inferno quando quero
e de lá trago singelas,
claras, límpidas novidades”.


6 de julho – 6 de dezembro de 2006

M.V.C.
S.D.G.

LIÇÃO DE MODELAGEM


Goethe afirmava em sua autobiografia, “Poesia e Verdade”, a seguinte máxima: “O homem que não é posto à prova não se instrui”. No caso de Edward Bunker, ele próprio foi quem se pôs à prova, como se lê em cada linha de suas memórias, “Educação de um Bandido” (Education of a Felon, Editora Barracuda, 381 págs, R$ 43). E que educação: Bunker passou cerca de vinte anos em instituições penais para delinqüentes de alto risco, desde internatos militares, passando por cadeias estaduais, até chegar ao ápice da iniciação carcerária: a lendária prisão de San Quentin – simplesmente um dos lugares mais cruéis dos EUA, com uma população composta de psicopatas, estupradores e condenados à morte.

Isso não foi o bastante. Fora das prisões, enquanto cumpria condicional, Bunker planejava golpes, roubos, chantagens a cafetões, usava heroína, fumava seus baseados – e, principalmente, atacava sem piedade qualquer criminoso que colocasse sua vida em risco, seja na forma de delação, agressão ou qualquer picaretagem. Sem dúvida, não era um sujeito fácil de se lidar. Mas o que o torna diferente de outros ex-detentos – uma vez que saiu da prisão em 1975 e, desde então, viveu sua pacata vida de cidadão comum, sem provocar distúrbios à ordem pública? Como ele conseguiu escapar do cão negro dentro de sua alma, o mesmo cão que, de acordo com suas próprias palavras, o levava a realizar atos desesperados numa espécie de “possessão demoníaca”?

É aqui que Edward Bunker supera todas as expectativas, indo contra a famosa parábola do escorpião que jamais mudou sua natureza. Se há uma razão para ele ter escapado da auto-destruição é o fato de ter encontrado a única coisa que o tornava incomum e único: a vocação de escritor. Como escreveu William Styron, o autor de “A Escolha de Sofia”, que apoiou, com unhas e dentes, a obra literária de Bunker, a vida do ex-condenado de San Quentin (e depois, como se não bastasse, da prisão de Folsom, outra lenda criminal americana devido à brutalidade de seu sistema carcerário) é uma prova de que “a graça salvadora da arte” faz milagres – inclusive mudar o caráter de um criminoso que, segundo suas palavras, não passaria dos trinta anos de idade.

Ele morreria quarenta e um anos depois – no dia 19 de julho de 2005, casado com Jennifer Steele e pai de Brandon, um menino de oito anos. Foi o autor de quatro romances publicados em nove países, entre eles “Nem os Mais Ferozes” e “Cão Come Cão”, já lançados no Brasil, além de ser reconhecido mundialmente como “Mr. Blue”, o criminoso que sumia logo no início de “Cães de Aluguel”, de Quentin Tarantino, fã confesso de seus livros. Ainda assim, como podemos entender tamanha mudança? Eis aí o mistério da vocação – e é nesse ponto que “Educação de um Bandido” transcende qualquer relato de detento, atualmente tão em voga na intelligensia brasileira. Não temos a história de um sujeito que culpa a sociedade, o mundo, mamãe, papai ou o Espírito Santo para justificar seus crimes. Bunker admite que suas ações criminosas faziam parte de sua personalidade – e que não havia outra maneira de lidar com isso exceto se aproximando lentamente do precipício. O que temos, isso sim, é o drama de um homem que, ao descobrir sua verdadeira vocação, luta a todo custo para agarrá-la, apesar das adversidades que o mundo e ele próprio criaram.

Ora, esta é a própria essência da vocação – estar sempre adiante, chamando o indivíduo para se aproximar, fingir que está próxima; e então, quando menos se espera, desvia-se, para estimulá-lo a ir adiante, para não petrificá-lo, torná-lo ciente de que a sua vida foi e será uma luta constante. O momento em que Bunker descobre a voz que o chama numa madrugada fria em San Quentin é um dos trechos mais pungentes de “Educação de um Bandido”. Ao ler um capítulo do relato de um condenado à morte, Bunker percebe que, se escrevesse o seu livro, teria pelo menos uma vantagem: teria tempo. E, a partir daí, as lembranças levantam o vôo de uma águia, pairando sobre o passado sem condescendência, narradas por um escritor que domina não só a arte da escrita e do estilo – conquistada a muito treino e custo -, mas transmite também uma experiência de vida que choca os fracos de coração.

O choque não se deve somente às atrocidades que ele viu no submundo do crime –relatadas com uma imparcialidade e uma lógica de quem conheceu as regras do jogo. Deve-se mais à visão de mundo peculiar de Bunker, a visão de um homem maduro que, por ter vivido de tudo na infância e na adolescência, sabe que, na verdade, não existe diferença entre o sujeito que vive dentro da prisão e o que vive fora dela. Todos nós somos uns condenados, é o que ele diz, e isso fica claro numa das cenas do livro: o encontro entre um jovem Bunker, recém-saído de um reformatório juvenil, e William Randolph Hearst, o magnata das comunicações.

É um momento impressionante – e narrado com a delicadeza que só os grandes escritores conseguem. Graças à ajuda de Louise Wallis, esposa de Hal Wallis, famoso produtor de cinema, Bunker consegue um emprego de motorista e a leva para visitar suas amigas de Hollywood, entre elas Marion Davis, a amante de Hearst. Enquanto as duas conversam, ele anda pelos jardins da mansão e se perde; encontra um velho sentado numa cadeira de rodas e decide perguntar onde elas estão. Somente depois de algum tempo percebe que o velho é ninguém menos que Hearst, completamente entrevado. “Não posso separar o que sabia do que aprendi depois, mas presumia sem pensar que gigantes nunca ficavam velhos e indefesos”, escreve. “Aquela foi verdadeiramente minha apresentação à eqüidade final da fragilidade e da mortalidade humanas”.

A sensação de exílio que fica ao ler cada palavra de “Educação de um Bandido” não é, em hipótese nenhuma, a sensação de fracasso – e sim a de uma perseverança ímpar, a perseverança de um escritor que venceu o seu demônio sem fazer concessões ao mundo. Mesmo com o vislumbre de seu norte, Bunker ainda passou por maus-bocados, todos provocados por sua natureza impulsiva. Contudo, se não fosse por essa mesma natureza, o mundo o teria trucidado sem misericórdia. Como o barro à espera da modelagem paciente, sabe que não teve muita sorte com suas experiências, mas também reconhece que foram elas que moldaram o futuro escritor. Este é um dos aspectos mais intrigantes da vocação: encontrá-la é, sem dúvida, uma coisa boa – ainda que, para concretizá-la, seja necessário trilhar um caminho dos infernos.

Mas, quando a vocação de Bunker finalmente frutifica, não há como negar a sabedoria do velho adágio: o de que na velhice temos três vezes o que se deseja na mocidade. As páginas finais de “Educação de um Bandido” mostram que qualquer teoria determinista é incapaz de apreender as surpresas do real. Aos sessenta e cinco anos, Bunker anda tranqüilamente pelas ruas de Paris e é reconhecido por alguns transeuntes; ele ainda tem a sensação de ser um pária, mas um pária que alcançou seu pequeno reino, um reino que lhe foi dado graças aos poderes da criação artística. E isso é o suficiente. Santo Agostinho dizia que a perseverança é uma virtude digna dos santos; claro que Edward Bunker não foi nenhum santo, mas o monstro dentro de sua alma deve ser encarado – e foi o que ele fez consigo mesmo, como exemplo de uma lição de modelagem. Nas três fotos suas publicadas na edição nacional de “Educação”, a primeira mostra um jovem com o olhar de uma fera, pronta para atacar; na segunda vemos certa serenidade na face, como se a consciência do mal fosse apenas o início de uma estranha purificação; e a terceira, a foto de capa, temos um sujeito fumando com prazer o seu charuto, despreocupado, o mundo adaptado ao seu ritmo e não o contrário.

Essas fotos são a prova de que o barro toma tempo para ser limado e que, somente então, o cântaro surge pleno e acabado. “Educação de um Bandido” é a odisséia de um homem partido em dois que lutou como poucos para recuperar a sua unidade. Apenas dessa forma, e graças à paixão pela escrita, ele acrescentou um pouco de poesia à dura verdade da vida. Porque, afinal, se o homem que não é posto à prova não se instrui, então Edward Bunker deve ser lido e respeitado pelo que foi: um verdadeiro mestre.