Tuesday, July 11, 2006

IT IS MY GIFT AND IT IS MY CURSE


"Não sei o que isso significa. Apenas sei que é muito assustador, e não tenho nenhuma dúvida de que a poesia do filme vai se tornar uma realidade específica, de que a verdade à qual ele se refere irá se materializar, far-se-á conhecida por si mesma, e - quer eu goste ou não - irá afetar a minha vida. Uma pessoa não pode permanecer passiva depois de ter se apoderado de verdades de tal ordem, pois elas chegam até nós sem que o desejamos, e subvertem todas as idéias anteriores em relação ao significado do mundo. Em um sentido muito real, a pessoa se divide, consciente de que é responsável por outros; é um instrumento, um meio, obrigado a viver e a agir para o bem do próximo.

Assim, Alexander Puchkin considerava que todo poeta, todo verdadeiro artista - independentemente de querê-lo ou não - é um profeta. Puchkin encarava a capacidade de olhar através do tempo e predizer o futuro como um dom terrível, e o papel que lhe coube causou-lhe indizível tormento. Ele tinha uma posição supersticiosa em relação a sinais e augúrios. Basta que recordemos como, quando estava correndo de Pskov para Petersburgo no momento do Levante Decembrista, o poeta tomou o caminho de volta porque uma lebre havia cruzado seu caminho; aceitou a crença popular de que isso era um presságio. Em um dos seus poemas, escreveu sobre a tortura que sofreu por ser consciente do seu dom da presciência, e da responsabilidade de ter sido escolhido para poeta e profeta. Eu me esquecera das suas palavras, mas o poema voltou-me com nova significação, quase que como uma revelação. Sinto que a pena que escreveu esses versos, em 1826, não era empunhada somente por Alexander Puchkin:

Cansado da fome espiritual
Em meio a um deserto triste meu caminho fiz,
E um anjo de seis asas veio a mim
Num lugar onde havia uma encruzilhada.
Com dedos leves como o sono
Tocou as pupilas de meus olhos
E minhas proféticas pupilas abriu
Como olhos de águia assustada.
Quando seus dedos tocaram meus ouvidos,
Estes se encheram de rugidos e clangores
E ouvi o tremor do céu
E o vôo do anjo da montanha
E animais marinhos nas profundezas
E crescer a videira do vale.
E, então, pressionou-me a boca
E arrancou-me a língua pecadora,
E toda a sua malícia e palavras vãs,
E tomando a língua de uma sábia serpente
Introduziu-a em minha boca gelada
Com sua mão direita encarnada.
Então, com sua espada, abriu meu peito
E arrancou-me o coração fremente,
E no vazio do meu peito colocou
Um pedaço de carvão em chamas.
Fiquei como um cadáver, deitado no deserto,
E ouvi a voz de Deus clamar:
"Levanta, profeta, e vê e ouve,
Sê portador da minha vontade -
Atravessa terras e mares
E incendeia o coração dos homens com o verbo".

(ANDREI TARKOVSKI, Esculpir o Tempo, pgs. 265-266)