Sunday, February 17, 2008

ADEUS A BIZÂNCIO

Novamente, temos dois filmes nos cinemas que falam do mesmo tema, que se complementam e, depois, vão para lados opostos. Trata-se de "There Will be Blood", de Paul Thomas Anderson, e "No Country For Old Men", de Joel e Ethan Coen, baseados em um romance de Cormac McCarthy (no caso, podemos falar que se trata do verdadeiro autor do filme, uma vez que os Coens só transformaram o romance em imagens). O primeiro filme é possivelmente uma obra-prima, mesmo sendo uma película díficil, seca, sombria, com um dos finais mais delirantes de todos os tempos; o segundo filme é uma Sessão da Tarde com pitadas de violência e metafísica. Ambos falam de um mesmo assunto: Será que Deus está a desaparecer aos poucos do nosso mundo?

"No Country for Old Men" parece que responde na afirmativa. Se ninguém ir atrás da obra de Cormac McCarthy, um dos grandes escritores do nosso tempo, pode até continuar a imaginar que ele pensa a mesma coisa. Entretanto, é só ler "Blood Meridian", "Suttree" (o único romance do século XX que fica aos pés do "Ulysses", de Joyce) e "The Crossing" para perceber que "No Country" é uma mistura diluída e pop do tema que McCarthy persegue com obstinação há mais de trinta anos: Como o ser humano pode suportar tanta iniqüidade? Para McCarthy, o homem não consegue mais suportar o Mal porque ele é uma presença que o sufoca e que mata a esperança; contudo, a descida aos infernos e o confronto com seu próprio abandono (dramatizados em "Suttree" e "The Crossing") podem ser as únicas formas de encarar o problema com a sobriedade e o estoicismo necessários. Para McCarthy, o mundo não perdoa e, quem pensar o contrário, cairá nas garras da vaidade e será derrotado sem misericórdia. Menos Eclesiástes, impossível.

É provável que os irmãos Coen não leram o restante da obra de Cormac McCarthy porque o seu filme, se não fosse pela presença de Tommy Lee Jones, seria o atestado de ateísmo que a pós-modernidade pediu. Esqueçam da trama policialesca entre Llewilyn Moss e Anton Chigurth; lembrem-se somente do desiludido Xerife Bill e da tola Carla Jean, verdadeiras ovelhas indo para o abatedouro. Ali está o coração do filme e do livro. A vida é uma inevitável derrota, os inocentes perdem, os malvados saem apenas com os ossos quebrados e o que sobra é o seu pai carregando uma tocha em um deserto inóspito - mas apenas em sonho (é interessante ver que McCarthy pegaria essa mesma imagem e a levaria às últimas conseqüências em seu último romance, "The Road"). Ainda assim, o fato do Xerife Bell afirmar ao seu tio inválido de que não é culpa de Deus o fato de não ter percebido Seus sinais e Sua presença no decorrer da vida, foi colocado de escanteio pela crítica e logo "No Country" foi alçado à filme de propaganda da turma de Richard Dawkins.

Tentaram fazer a mesma coisa com "There Will be Blood", mas não conseguiram. Em primeiro lugar, porque o filme não é uma crítica ao fundamentalismo religioso; é mais um aviso para que os representantes do Espírito não se vendam às tentações do Mundo. E em segundo lugar, também não é uma crítica ao capitalismo. Daniel Plainview, interpretado pelo gênio perturbado de Daniel Day-Lewis, é um patriarca do Velho Testamento que, ironia das ironias, não tem filho verdadeiro, mas arruma um que logo depois o deserdará. O seu sobrenome é um alerta da sua psicologia: "Plainview" significa alguém que vê de maneira rasa, plana, ao rés do chão. Contudo, é um patriarca que, por causa da sua libido dominandi, acredita que pode se sobrepujar ao Espírito. Este é representado por um pastor fracote, Eli Sunday, que parece estar vivendo o tempo todo no domingo do Senhor; afinal, é o líder da Igreja da Terceira Revelação, que, como o próprio nome indica, é filhote direto dos milenaristas gnósticos de Joachim de Fiore.

Plainview e Sunday são o mundo e o espírito em uma luta pelo poder em que o primeiro tentará esmagar o segundo com todas as suas forças e, depois, com a ajuda do próprio pastor, que comete o pecado maior da apostasia. Quando Plainview berra a Sunday em seu combate final que ele é a Terceira Revelação, eis aí alguém que fala a verdade cruel: Plainview é o Leviatã de Thomas Hobbes transformado em realidade, um homem que não confia em ninguém, que usa os outros e que se isola cada vez mais em uma auto-destruição sobre a qual não tem controle nenhum. Mas isso só acontece porque o representante do espírito se vendeu ao mundo, negou a sua própria vocação. De certa forma, "There Will be Blood" vai além de "No Country for Old Men" porque vai às últimas conseqüências; sua conclusão lógica é de que, se quem representa o espírito insistir na sua fraqueza, o resultado será o fim do Cristianismo. É como dizia São João Crisóstimo: a culpa de não termos mais cristãos é dos próprios cristãos. Os dois filmes em cartaz mostram exatamente esse problema. Quando os representantes do espírito e da integridade moral fraquejam, podemos esperar mais do que sangue; podemos esperar também choro e ranger de dentes.

5 Comments:

Blogger Carlos Eduardo said...

"No Country for Old Men" levou o Oscar. Seus diretores, merecidamente, também.Ótimo texto, como de praxe. Mas quero mesmo dizer que ontem á tarde recebi a nova edição da revista "Bravo". Na capa seu ídolo Bob Dylan.Assina o texto o jornalista Eurípedes Alcântara, diretor de redação de "Veja". Segundo o diretor de redação de "Bravo", João Gabriel de Lima, Alcântara é admirador de Dylan há mais de trinta anos;já assistiu a muitos espetáculos e leu quase todos os livros publicados sobre BoB Dylan. O texto está bem escrito.
Mas em que pese seus vinte e nove anos, um ano de vida a menos, do que os anos de tietagem do autor da matéria, ainda acredito que você é, em língua portuguesa, a pessoa mais apta a escrever qualquer coisa sobre o astro. Se você não fosse o "homem internacional do mistério" certamente teria sido chamado para escrever a matéria de "Bravo".

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Blogger mmjiaxin said...

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