Aurora Borealis

Wednesday, January 03, 2007

NÃO QUEREM QUE A NOVIDADE RETORNE


Um dos grandes eventos do ano de 2006 foi a volta do romance, este gênero literário que já incendiou a imaginação de milhares e milhões. Mas será que voltou mesmo? Vejamos: dois autores de língua inglesa, o veterano Thomas Pynchon e o novato Jonathan Littell, lançaram seus respectivos livros, “Against the Day” e “Les Bienveillants”, com algum estardalhaço publicitário. Em primeiro lugar, porque são romances com mais de 900 páginas (“Against the Day” comete a heresia de ter 1086 páginas); em segundo lugar, porque mexem com um assunto desagradável, mas freqüente no nosso dia-a-dia: a guerra.

Jonathan Littell, um americano que escreveu o seu primeiro romance em francês e, para cúmulo do povo que instituiu a guilhotina como solução dos problemas, ganhou o prêmio máximo da literatura local, o Goncourt, relata em “Les Bienveillants” (“As Benevolentes”, uma referência às divindades gregas que consumavam o destino de um pobre pecador) a vida de Maximilian Aue. Quem é o fulano? Segundo a mente imaginativa de Littell, Aue foi um integrante da SS nazista que, entre seus hobbies, praticava o incesto, o homossexualismo e o sado-masoquismo (ah, sim, às vezes também planejava o extermínio de seres humanos); o livro é escrito em um francês claro, repleto de divertidos anglicismos, em que o tom é de um “conto moral para os irmãos fraternos”, o que significa que talvez o leitor seja obrigado a mergulhar no mal humano como se fosse algo – e aqui surge a Hannah Arendt dentro de nós – “banal”.

Já Pynchon, famoso recluso que não tira fotos, não dá entrevistas, mas não hesita em defender Ian McEwan de uma idiota acusação de plágio, faz, com “Against the Day”, a súmula de sua obra. Uma obra e tanto, diga-se de passagem: Pynchon é, possivelmente, o maior escritor vivo, com livros surpreendentes como “V.”, “O leilão do lote 49”, “O Arco-Íris da Gravidade” e “Mason & Dixon”, que retratam o vazio espiritual do Ocidente com um humor e uma tragédia somente vistas em um Thomas Mann ou um Robert Musil. “Against the Day” (o título é uma expressão das epístolas de São Pedro sobre quem aguarda o dia do Julgamento Final) continua com a mesma obsessão: cria um panorama gigantesco que começa na Feira Mundial de Chicago em 1893 e termina às vésperas da Primeira Guerra Mundial. O alvo é claro a partir do momento em que percebemos que todos os personagens estão envolvidos com o mundo da ciência e do terrorismo clandestino. Pynchon não hesita em relacioná-los ao atacar a atmosfera intoxicante de progresso que dominava o final do século XIX e o início do século XX – e que tudo isso somente teve um fim: a destruição em massa do ser humano.

Cada um desses escritores passou, no mínimo, dez anos preparando cada livro. E o que faz a crítica? Em menos de um mês, em algumas linhas, em poucos minutos, eles sugerem que lê-los seria uma perda de tempo. Littell foi acusado de “banalizar” o mal nazista, torná-lo “sensacionalista”; Pynchon foi jogado para o lado e muitos afirmaram que ele não é mais “o romancista que a América precisa”. Ah, a crítica, este setor pobre da inteligentzia! O que fazer dela? Ainda não perceberam que a crítica apenas determina a moda, o costume do tempo, enquanto o artista determina o subterrâneo do tempo, que está realmente oculto e que, sem nenhum aviso, explode em nossos olhos como uma bomba?

Não, não perceberam. Durante anos reclamaram que o romance estava morto, acabado. Seu nome vinha dos termos “novel” (em inglês) e “novella” (em italiano e depois transformado para o espanhol) que significava exatamente isso: a novidade. O romance nunca foi um simples gênero literário; era, nas palavras de Milan Kundera, um novo modo de conhecimento da realidade, uma cortina que se abria para o ser humano e mostrava os seus sonhos, as suas hipocrisias, as suas esperanças e, sobretudo, as suas infâmias. Com o passar do tempo, disseram que a sua morte se devia ao fato de que ninguém tinha nada a dizer, que a história terminara com um suspiro e não com um estrondo e que, kaput, sobrava apenas algumas ruínas e a literatura de péssimo gosto.

Mas eis que estes dois sujeitos, Thomas Pynchon e Jonathan Littell, mostram que a novidade voltou. Pynchon é explícito em suas intenções: logo abaixo do título de seu livro, ele insere um aviso - “A novel”. Uma novidade. Littell não é tão sutil, mas não menos astuto. Em entrevistas, ao ser perguntado porque escreveu um livro gigantesco sobre um nazista, tema já comum em milhares de teses e estudos, foi direto ao ponto: Porque queria saber como alguém decide se tornar uma porcaria. Para responder isso precisa ter muita coragem – virtude fundamental para um artista nos nossos dias. E qual a razão disso? Simples: ninguém deseja ver que o início de todas as guerras, de todos os terrores, de todas as bombas que explodem sem aviso, está na covardia de enfrentar a guerra dentro de nós. Não é uma novidade, mas, muitas vezes, o artista deve informá-la aos outros do modo mais escandaloso possível.

Ora, a crítica apenas cumpre a sua função: espalhar o medo, enfraquecer a virtude, não deixar que a novidade retorne. Isso não significa que o artista deva desistir. Seu norte sempre foi e sempre será o da perseverança. Se a qualidade de um livro pode ser intuída da sua epígrafe de abertura, então Pynchon já tem o seu lugar garantido no topo das boas novas; ele abre “Against the Day” com uma frase de Thelonious Monk, o grande pianista de jazz que, parece, tinha os seus rasgos de místico: It is always night, for we wouldn´t need light. É sempre noite pois não precisaríamos de luz. Não é uma mera epígrafe; é toda uma declaração de valores. O romance é o farol pelo qual toda a sociedade deve se guiar, mesmo que o caminho pareça estreito e difícil. E a função do artista é apresentar esta realidade implacável e misteriosa aos olhos do ser humano – para que fique preparado quando estourar a bomba da destruição e persevere na adversidade.