Friday, July 21, 2006

Se te ofereceste de
presente a minha
sombra, o que faria?
Venderia no templo?

Repartiria com os pobres?
Enquadraria em um museu?
"Para cada escuridão
abandonada, deixe

uma porta aberta" -
foi tua sugestão.
Ah, se, ao ter a minha
treva, pudesses ser a

luz que grava os passos
trôpegos do meu caminho,
será que entenderias que
também teria de ter a

tua treva? Ou então
acreditas que a luz é
visível por uma claridade
que recobre somente

teus gestos e olhares?
Não. A luz desejada
pela tua mente não é a
que o teu coração consente;

abra então a porta deste
último, esqueça dos atalhos
do teu pensamento, do
teu enxame de idéias.

Sei porque vim e sei
que as trevas somente
são uma parte, nunca
o Todo. Mas - e tu?

Tu oferecerias minha
sombra aos vendilhões,
aos amantes da tua carne
e do teu mundo. Não

compreendes que este é
o verdadeiro presente?
Que não pode ser mais
devolvido? Pois é tudo

o que tenho e se não o
aceitas, também não me
terás. A viagem deveria
terminar por aqui.

Ainda espero, prenhe
na escuridão mais
fecunda, que compreendas
o que te foi dado; e

saibas que somente no
fim do oceano o peixe
sabe que o sol some
no horizonte, mas nunca

desaparece para
nascer simplesmente

no amanhã.