Monday, April 24, 2006

O NOVO MUNDO

Advinha se alguém deu importância para o novo filme de Terrence Malick? Claro que não. Por que será? Por que é um filme que não chama a mocinha de "Pocahontas"? Por que é um filme em que não há nenhuma cena de sexo, apesar de ser uma história de amor? Por que não estetiza a violência? Ou por que não condena a civilização européia como "dominadora", mostrando que, apesar das diferenças culturais, ainda há e sempre haverá uma natureza humana constante?

Todos esses motivos são responsáveis pela ignorância proposital em relação a este filme, um colosso na mesma proporção de "The Thin Red Line" (1998), a obra anterior de Malick. Ele continua com as suas obsessões: a câmara filmando cada detalhe de uma natureza que sempre nos deixa em constante espanto; a escolha por filmar a alma de cada personagem e seus sentimentos através de uma narrativa fragmentada e elíptica; e o domínio absoluto de um raciocínio filosófico que não precisa das palavras, mas que se exprime através de uma gramática das imagens.

Entretanto, há algo mais. Malick sempre foi um cineasta à procura do Éden perdido. Onde é o nosso verdadeiro lugar? Existe isso? Existe alguém com quem podemos nos completar? As respostas dos filmes anteriores eram negativas. Geralmente, o Mal, representado pela violência no coração humano e pela guerra, criava obstáculos paa tudo o que poderia ser bom. Nada cumpre aquilo que promete, é o que Malick parece nos dizer, mas ainda assim devemos procurar a terra prometida.

Ora, em "O Novo Mundo" há um passo surpreendente - e, por isso mesmo, ninguém percebeu a evolução no pensamento cinematográfico de Malick. Ao contar a história da nativa americana que se apaixona pelo aventureiro inglês John Smith, Malick desenvolve uma reflexão sobre dois pólos que existirão sempre em nossa existência: a ilusão e a realidade. O que fazer com elas? Um não vive sem o outro, mas, em algum momento de nossas vidas, devemos fazer uma escolha entre os dois. O problema é que, independente da escolha, a dor será inevitável. Se a ilusão fôr a escolhida, deve-se preparar para a criação de um mundo artificial e também para a petrificação daquilo que guardamos de mais precioso: a alma humana. E se a escolha for para o real - bem, prepare-se para enfrentar a realidade implacável, aquela para a qual tudo o que sobe converge: a morte.

John Smith (interpretado com recato por Colin Farrel) é o mundo do sonho, a utopia em pessoa. O seu modo de ver o próprio mundo é característico de qualquer idealista: no momento em que se deve ter uma posição perante a vida, foge como o diabo da cruz. Ele se apaixona por Pocahontas, mas nega completamente o seu amor ao ver que a realidade sempre contra-ataca. Para ele, não há conexão entre amor e realidade; um deve ser excluído em favor do outro porque, na sua visão de soldado que deseja apenas que lhe é estranho, o que não lhe é mais estranho perde o seu fascínio.

A nativa Pocahontas (Q´Quariana Kilcher, dirigida com sutileza por Malick) é, como toda a mulher que se preze, o ponto de contato entre a ilusão e a realidade. Ela não sabe qual lado seguir: se o dever do coração ou o dever da tribo. Seu mundo interior tem ânsia para entrar em harmonia com a natureza que a encanta, mas ela não sabe como encontrar o tal equilíbrio. Ela vê o mundo sempre com olhos de criança e este lhe é hostil em qualquer lugar: na América, na Inglaterra, dentro de sua própria tribo, com seu próprio pai. Ela é uma completa exilada, sem norte, apenas com o sonho de John Smith alimentando-a como um deus.

Até então, tudo bem. Malick passa uma hora e quarenta minutos narrando em detalhes a história de amor entre Smith e Pocahontas - tudo isso ao som de um Mozart melancólico que anuncia: não há como dar certo. Mas o filme apresenta uma terceira perspectiva: a de John Rolfe, numa interpretação sutil de Christian Bale. Homem que perdeu a mulher e o filho, ele vê na nativa (agora rebatizada de Rebecca) não um ser perfeito e angelical, como anunciou Smith, mas alguém "quebrado, indefinido, repleto de dor". Ele a conhece depois que Smith a abandona para singrar outros mares e divulga que está morto. Rolfe sabe que Rebecca tem uma sombra em seus olhos; insiste que ela, algum dia, o amará. Pede-a em casamento e o pedido é aceito com uma frieza impressionante.

Mas Rolfe persiste. Cuida dela, ambos têm um filho, criam uma plantação de tabaco e vão juntos para a Inglaterra numa audiência com o rei, em que a antiga Pocahontas será examinada como uma "princesa nativa". Lá, ela descobre que o capitão Smith está vivo; a sombra retorna em seus olhos e ela sente repulsa por Rolfe. Diz que está "casada com o outro, casada na alma". Rolfe finalmente abandona: percebe que, em sua vaidade, achou que a convenceria do seu amor e tudo daria certo. Mas se enganou: ela ainda ama Smith. Rolfe chama o capitão e os dois antigos amantes se reencontram num jardim inglês, repleto de árvores bem podadas e labirintos harmoniosos. Smith está devastado pelo fracasso de suas aventuras nas Índias; ele se arrepende de ter abandonado Rebecca. "Parece que estamos conversando como se fosse a primeira vez", diz. Rebecca fica quieta; volta-se para onde está Rolfe (que, pasmem!, reza), abraça-o e diz: "Meu marido".

Malick cria uma das cenas mais pungentes do cinema atual. Ela é curta, simples, dura menos que dez segundos. E trata-se apenas de duas pessoas, um casal alquebrado, se abraçando e se reconciliando. A cena é pungente porque Rebecca fez a escolha pela realidade - e a realidade é, de fato, conectada com o amor. Não o amor de Smith, aventureiro, inconstante; mas sim o amor de Rolfe que é constante, fiel, duradouro - até mesmo no momento mais terrível de nossas vidas, o momento da morte. Nos cinco minutos finais, Malick faz com que a harmonia interior de Rebecca se revele num fluxo de imagens que leva o espectador para dentro da escolha emocional da personagem, tudo isso ao som da abertura de "Das Rheingold", de Wagner. São esses momentos, em que vemos Rolfe abraçando Rebecca no leito de morte, e que o espírito dela se une com o mundo natural que sempre a espantava, que Terrence Malick prova ser o sucessor de Murnau. Ao aceitar a realidade como ela é, Rebecca também está pronta para a morte. E, nesse ponto, ela também ensina Rolfe não só como a morrer, mas a preservar o sentido da vida para o filho que continua o trabalho de ambos. "Meu amor é onde está meu peso", escreveu Santo Agostinho e poucas pessoas são capazes de compreender a profundidade desta afirmação. O novo mundo nunca foi o país estrangeiro, a terra prometida, o solo de prosperidade e de segurança. O novo mundo se encontra dentro de nós, ao aceitarmos que, sim, o real e o amor são compatíveis, e isso implica no sacríficio do ego, das paixões e das ilusões que somente deixam feridas mal-cicatrizadas. Nem sempre tudo cumpre aquilo que promete, mas, muitas vezes, é possível cumprir tudo aquilo que nos foi prometido.

3 Comments:

Blogger Breno Nunes said...

Ih, cara, "The Thin Red Line", não acreditei uma vez em que o Alvaro me disse por ICQ, há vários anos atrás, que o filme não passava de "um amontoado de clichês pseudo-filosóficos", fiquei assim... "Como assim, Alvaro?!?!?!". Mas sei lá neh, o rapaz deve ter suas razões... Você já escreveu algo sobre "Crash", só fui assisti-lo outro dia aqui em casa, tive um troço... Abraço.

11:28 AM  
Blogger mmjiaxin said...

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