Aurora Borealis

Tuesday, August 17, 2004

A SABEDORIA DA QUEDA


Sometimes you just can be a man
When you’re living in the darkness
Of the shadowlands


Ryan Adams, “The Shadowlands”


Convém, convém, convém uma viagem. Esta é a decisão que Federico Mayol, ex-político catalão, dono de uma das maiores agências de seguro da Espanha e pai de três filhos, toma depois que sua esposa Julia o avisa de que ele deve sair de sua casa, “para aproveitar os últimos momentos da velhice”. Federico não é necessariamente um sujeito brilhante; ele demora algum tempo para decidir realmente o que fazer depois de uma notícia tão devastadora. Afinal de contas, está com 77 anos de idade e sua mulher resolveu avisá-lo justamente um dia depois da comemoração das suas Bodas de Ouro. Dizer que seu mundo desabou seria um eufemismo porque, na verdade, Federico Mayol caiu para sempre naquela terra das sombras que chamamos de “recomeço”.

As linhas acima tentam sugerir ao leitor o que seria a trama do romance de Enrique Vila-Matas, “A Viagem Vertical”, publicado recentemente pela Cosac & Naify, e ganhador do prêmio Rômulo Gallegos de 2001. Mas não há propriamente uma trama ou sequer um enredo. Existe, isso sim, a narrativa de uma jornada do espírito – a tal viagem vertical do título – de um homem que, sabe-se lá como, decide que reconstruirá o mais importante: o mundo dos sentimentos. Claro que Vila-Matas (um espanhol que afirma com ousadia que escreve para recriar toda a literatura ocidental) não faz disso um melodrama ou então um romance denso sobre Como O Ser Humano Está Cada Vez Mais Próximo da Morte e outras divagações pseudo-filosóficas. A novidade está no humor agridoce: sim, ele escreveu um livro sobre a finitude da vida, mas, sobretudo, sobre como as ervilhas que caem numa vasilha impressionam as nossas emoções e destroem tudo o que imaginávamos ser duradouro.

Federico Mayol é um perfeito anti-herói: seu sucesso profissional se deve mais às suas intuições do que propriamente a uma inteligência aguçada. Sua relação com o filho Júlian, um pintor surrealista que sonha com quadros, mas jamais os pinta, é uma competição originária de um trauma que o narrador satiriza com uma nova terminologia psiquiátrica: a Síndrome de Oxford. Mayol abandonou os estudos devido à Guerra Civil Espanhola e, mal ele sabe, seu destino possui todos os paralelismos de um herói literário, seja Dom Quixote ou o pobre James Stewart apaixonado por uma Kim Novak fantasmagórica em “Um Corpo Que Cai”. O desejo de reparar as lacunas de conhecimento em sua formação leva Mayol a se encontrar, por acaso ou não, com intelectuais e escritores pretensamente geniais, mas que são exemplos para Vila-Matas alfinetar os seus pares. Com a imparcialidade que só um escritor em pleno domínio de seus meios possui, narra-se as trapalhadas de um catalão tosco que procura sinceramente uma cultura que lhe seja vital, enquanto aqueles que se consideram mais civilizados petrificam a Atlândida submersa neles e se esquecem de deixar o acaso tomar conta de seus planos e teoremas. O próprio acaso é um dos personagens de “A Viagem Vertical” e se Vila-Matas faz questão de mostrar que ele não é algo aleatório, mas sim uma multidão de causas, é para confirmar que esses fios que amarram cada um dos personagens – seja o próprio Mayol, seu sobrinho fracassado Pablo e o narrador do livro, que é uma espécie de elo que une os dois primeiros – são fios abandonados, literalmente, ao deus-dará. E, dessa maneira, o pretenso absurdo no modo como Vila-Matas narra e articula as cenas se revela como um artifício para mostrar ao leitor a possibilidade infinita de mistério que a vida nos reserva, pois é disso que a grande literatura fala: a capacidade assustadora do ser humano de curar suas feridas e alçar novos vôos.

“A Viagem Vertical” é também um romance subversivo, não no sentido politizado, mas no sentido religioso porque seu tema é o que verdadeiramente importa – a busca por um sentido verdadeiro na vida no momento em que o homem se depara com sua própria escuridão. Mayol se despe de suas falhas e fragilidades, admitindo sua falta de cultura, o rancor pelo filho artista, a mágoa pela mulher que o abandonou e, enfim, pela incapacidade de ter vivido sem um eixo; mas, agora, com 77 anos, o acaso lhe oferece uma última oportunidade, mas desde que ele a enfrente como um homem – ou seja, vivendo a descida aos infernos com a dignidade que somente um Vila-Matas poderia retratar com um sorriso maroto em cada verbo e em cada adjetivo. É nessa sabedoria da queda, por assim dizer, que o romance cativa o leitor, uma vez que este também se descobre igualmente numa situação de decaído. É a partir daí que começa uma viagem iniciática simultânea – e as piscadelas que Vila-Matas dá a todo tempo ao simbolismo tradicional mostra ainda mais como a intenção do seu romance é o de um “contrabandista”, o de trazer para o leitor moderno que saboreia a literatura, mas que se esqueceu da intensidade de uma vivência espiritual, os mistérios de que um outro mundo sempre foi possível.

Foi T.S. Eliot quem resumiu o propósito dessa vida na Terra: “For us there´s only the trying” (Para nós há somente a tentativa). Mas como também a mente humana não suporta a realidade implacável – a indesejada das gentes, o verme na maça, a carpideira fatal – poucos conseguem ir ao final de sua jornada. Vila-Matas permite a Mayol atingir tal fim e se tornar um herói no exato momento em que começa a desaparecer deste mundo, cumprindo aquilo que Santo Agostinho disse sobre os homens que se aprofundam na essência da realidade através do conforto do exílio: “Aqueles que começam a amar também começam a se despedir”. Mesmo sem saber dessa lição, Mayol descobre fatos insuspeitados sobre o mundo, sobre a sua própria existência e sobre como a realidade possui várias faces, todas elas convergindo para um único fim – a de que todos podem recomeçar suas vidas, independentemente das ruínas do tempo, desde que se tenha a coragem fundamental de enfrentar a terra das sombras. Vila-Matas restaura com Federico Mayol algo que estava perdido na literatura: a recuperação da honra da pessoa humana. Tanto o seu herói como o seu criador são os soldados solitários que ganharam a última guerra depois de terem perdido todas as batalhas, mas também poderiam ser cada um de nós, aflitos em nossas trevas, incapazes de recomeçar e corrigir nossos erros passados, simplesmente porque não aceitamos o fato de que sempre convém, convém, convém uma viagem.